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Nada é intraduzível num sentido, mas
em outro tudo é intraduzível, a tradução é
um outro nome para o impossível. Num outro sentido da palavra “tradução”,
certamente, e de um sentido a outro é fácil me fechar sempre
entre estas duas hipérboles que são no fundo a mesma e ainda
se traduzem uma na outra. (Jacques Derrida)
Em regra geral o nível da tradução
técnica é mais elevado que o da literária, pelo menos
no que diz respeito à fidelidade. Um erro na versão de uma
peça de Shakespeare, quando muito, indignará um crítico;
mas na de uma bula de remédio ou de um formulário de materiais
de construção pode ter conseqüências imprevisíveis.
(Paulo Rónai) O ponto de partida desta reflexão está
ancorado na dimensão desconstrutivista; ou seja, vou discutir a
formação do tradutor científico e técnico
levando em conta a problemática da necessidade e impossibilidade
da tradução a partir das reflexões de Jacques Derrida.
Nesta dimensão o papel do tradutor na produção e
transformação de significados é encarado de maneira
muito peculiar; a tradução passa a ser um acontecimento.
Derrida (1982) se posiciona sobre a questão da necessidade e da
impossibilidade deste acontecimento. A tradução encarada
como acontecimento revela o double bind: a necessidade e a impossibilidade
– da sua realização (cf. p.102). Sobre o double bind,
Derrida (1996a) faz a seguinte afirmação:
Este double bind, esta dupla imposição inanalisável
da análise está presente no caso de todas as figuras ditas
do indecidível que são impostas sob os nomes de pharmakon,
de suplemento, de hímen, de différance, e de um grande número
de outros que trazem em si predicados contraditórios ou incompatíveis
entre si. (p. 44)
Dentro dessa problemática, então, como pensar a formação
de um tradutor? Como se forma? O que se ensina? Para estabelecer um ponto
de partida, discutirei a divisão entre tradução científica
e técnica e tradução literária/poética
e filosófica que “tradicionalmente” se estabelece nos
estudos de tradução.Paulo Rónai (1952), ao discutir
os problemas e dificuldades do ensino de línguas estrangeiras e
da tradução no Brasil e que um dia tradutores técnicos
formariam uma classe considerada e bem remunerada, comenta:Enquanto o
processo das ciências se torna vertiginoso e o intercâmbio
dos resultados um imperativo categórico, há cada vez menos
técnicos capazes de ler um livro escrito em língua estrangeira.
Aí é que entram em campo os tradutores. Não os de
poesia ou de ficção, mas os de obras científicas
e técnicas. É de prever que em futuro próximo eles
venham a formar uma classe considerada e bem remunerada devido à
imprescindibilidade de seu trabalho. (p. 51)Rónai, nesta afirmação,
faz uma divisão estanque entre traduzir o texto de poesia e ficção
e o técnico. Alguns teóricos, mais radicais, chegam a afirmar
que, para traduzir o texto literário-poético, o tradutor
tem que ser poeta para realizar uma boa tradução; no outro
extremo, o tradutor tem de se anular para traduzir um texto técnico,
não pode ter qualquer participação no texto que traduz.
Vejamos esta posição expressa por Jean Maillot (1969) através
da dicotomia ciência e arte; para justificar de modo diferente o
papel do tradutor, ele comenta: Parece-nos que a tradução
científica e técnica, com a multiplicidade de seus aspectos,
representa o setor mais favorável ao estudo de uma forma de atividade
humana que se aparenta mais às ciências, do que às
artes. (p. XIX)
Levando em conta essa distinção tão estanque e dicotômica,
como a de Rónai, como pensar a formação de um tradutor
de um texto científico e técnico, como refletir sobre a
tradução enquanto necessária e impossível
a partir da dimensão desconstrutivista? Quais são os limites
e o papel destas dicotomias e, se é possível estabelecê-las,
como pensar a formação do tradutor do poético e da
técnica, da arte e da ciência, do filosófico e do
científico? Estas dicotomias estão fortemente arraigadas
nas teorias de tradução e dificilmente são questionadas.
Entretanto, Rónai e Maillot expressam um conflito entre o literário
e o técnico quando tratam da formação prática
do tradutor. Rónai, citando Maillot, ao proclamar a necessidade
de criar as escolas de tradutores, afirma:
Nessas escolas ensinar-se-iam lado a lado a tradução literária
e a tradução técnica. Enganar-se-ia quem as julgasse
dois domínios opostos ou mesmo separados. “É certo
que a tradução técnica não é de modo
algum um exercício literário, mas, sendo o estilo na verdade
a maneira de exprimir o pensamento com o auxílio dos recursos da
língua, os mesmos problemas hão de surgir sempre, qualquer
que seja o domínio no qual se exerce a atividade do tradutor”,
afirma com toda a razão Jean Maillot. (p. 52)Desses dois pensadores,
podemos dizer que, por um lado admitem e assumem a separação,
a diferença entre tradução técnica e literária
na teorização da tradução; por outro, admitem
que essa separação não é tão evidente
no ensino prático da tradução. A dicotomia teoria
e prática é uma das mais centrais e arraigadas, na formação
institucional do tradutor, e que sustenta, entre outras, a que estamos
questionando entre o técnico e o literário. A partir, então,
da discussão destas duas principais dicotomias: teoria e prática,
técnico e literário, podemos relacioná-las à
fidelidade; e sobre esta questão Rónai comenta: Em regra
geral o nível da tradução técnica é
mais elevado que o da literária, pelo menos no que diz respeito
à fidelidade (p.53). A questão da fidelidade está
relacionada a uma outra dicotomia: “original” e tradução
– não tratarei aqui desta relação -; faço
esta afirmação para ressaltar que toda reflexão sobre
a tradução está, como vimos, estruturada nestas dicotomias.
Neste trabalho meu objetivo é questioná-las para poder situar
melhor o papel do tradutor e refletir sobre sua relação
com as línguas envolvidas na tradução. Ao tratar
da problemática das palavras na tradução do texto
técnico e da ilusão de que o tradutor técnico opera
com uma linguagem diferente daquela dos textos literários, Rónai
comenta:Como essa idéia não passa de ilusão verificamo-lo
ao lermos esse livro excelente [A tradução científica
e técnica de Jean Maillot traduzido para o português pelo
próprio Paulo Rónai]. Mostra ele como a polissemia, essa
enfermidade da linguagem (que lhe enfraquece a lógica, enquanto
a torna apta à expressão poética), infeta o domínio
da terminologia científica. (p. 54)O que Rónai parece não
querer assumir é que na sua concepção de tradução,
a partir desta afirmação, ele está propondo uma “fidelidade”
no plano das palavras de maneira isolada, esquecendo-se do texto, da obra
traduzida como um todo. É importante ressaltar também a
linguagem metafórica empregada por Maillot neste trecho: “essa
enfermidade da linguagem infeta o domínio da terminologia científica”.
Por um lado, esses pensadores querem acreditar que a tradução
científica é “contaminada” pela “enfermidade
da linguagem” ordinária; por outro, esquecem que esta “enfermidade”
já existe desde sempre no texto científico, mesmo antes
da sua tradução, do mesmo modo que eles estão utilizando
as metáforas “médicas” para discutir sobre a
tradução, seu objeto de estudo. Sobre o tipo de “enfermidade
da linguagem”, vejamos como Rónai comenta duas delas:Ainda
que o tradutor supere todas as dificuldades da terminologia técnica,
só poderá fazer trabalho satisfatório se manusear
com igual eficiência os termos não-técnicos: verbos,
pronomes, conjunções e preposições. [...]
Os verbos alemães dürfen, sollen e müssen distinguem-se
por matizes só perceptíveis por quem possui bastante familiaridade
com o espírito do idioma. [...] em inglês há uma alternância,
não-enquadrável em qualquer regra, de substantivos compostos
e de substantivos ligados pela preposição of. (p. 55-6)Deste
modo, o tradutor tem de ter “bastante familiaridade com o espírito
do idioma” para poder realizar um “trabalho satisfatório”
e saber utilizar os termos não-técnicos. Ora, como separar,
então, da língua, do idioma, a terminologia técnica
que vai traduzir? Ao comentar que para traduzir o sentido não basta
somente conhecer as palavras, é necessário conhecer as coisas
a que o texto se refere, isto é, não é suficiente
exigir do tradutor somente o conhecimento da língua estrangeira,
mas também é necessário exigir o conhecimento do
“sentido e da matéria” da obra a ser traduzida, Georges
Mounin (1963) afirma:É a idéia, brilhantemente expressa
por Paulo Rónai [Escola de Tradutores, 2a ed., 1956, p. 84], segundo
o qual, quando se precisa traduzir para o português um manual de
geologia em húngaro, é importante conhecer o húngaro
(assim como o português) mas igualmente e pelo menos tão
profundamente a geologia. (p. 215)Neste caso, se substituirmos a geologia
por qualquer outra “matéria”, como pensar a relação
entre “sentido e matéria” na formação
do tradutor científico e técnico, se a “matéria”
não se separa - não pode ser separada – do “espírito
do idioma” já que estão imbricados de maneira definitiva,
como afirma Mounin citando Rónai ?Maillot (1969) insiste que o
conhecimento técnico e lingüístico devem ser extensos
quando, no primeiro capítulo do seu livro, ao tratar da equivalência
dos termos e das noções, faz um comentário parecido
com o de Mounin e Rónai; vejamos:A insuficiência do contexto
exige, então, do tradutor a inteligência perfeita do assunto.
Teremos mais de uma vez a ocasião de insistir na necessidade, para
o tradutor técnico, de acumular conhecimentos extensos, tanto do
setor técnico como no setor lingüístico. (p.7) Em relação
ao texto literário, para a maioria dos teóricos, o “espírito
do idioma” é parte integrante do texto; a “enfermidade
da linguagem” é apropriada à “expressão
poética”. No caso do texto técnico, supostamente,
a “matéria” estaria “fora” deste “espírito
do idioma”; ela não deveria ser contaminada pela “enfermidade
da linguagem”. Sabemos que este fato não é possível
quando se trata da formação do tradutor literário
ou técnico. A “língua” está se impondo
da mesma maneira tanto para um como para outro; qual seria então
esta diferença? A distinção estanque que “tradicionalmente”
se faz entre teoria e prática e entre a tradução
técnica e a literária não questiona o papel do tradutor
e prevê de maneira distinta a participação na produção
e transformação de significados. A participação
do tradutor, nessa visão, possibilita afirmar que o tradutor técnico
se separa, de maneira distinta do tradutor literário, de seu “objeto
língua” – do “espírito do idioma”
- para traduzir. Para o tradutor literário esta separação
é vista como mais complexa. A tradução do texto literário
tem que ser fiel ao “espírito do original”. Por isso
o comentário de Rónai de que a tradução do
texto técnico pode chegar a uma fidelidade maior que a do literário.Mais
uma vez recorro a Maillot, já citado por Rónai, quando,
nas considerações gerais do capítulo que trata do
estilo, afirma:Ouve-se, às vezes, exprimir a opinião de
que, na tradução técnica, os problemas de estilo
carecem de importância. De certo, a tradução técnica
não é, de modo algum, um exercício literário,
mas, sendo o estilo na verdade a maneira de exprimir o pensamento por
meio dos [com o auxílio dos] recursos da língua, os mesmos
problemas hão de surgir sempre, qualquer que seja o setor [domínio]
no qual se exerce a atividade do tradutor. (p.75)Levando às últimas
conseqüências podemos, então, afirmar que não
é mais possível fazer a distinção –
prevista para a formação institucional do tradutor –
entre texto literário e técnico.Ao tratar da questão
da tradução a partir do double bind, enquanto um acontecimento
que estabelece uma “outra lógica” para o tradutor no
seu envolvimento com a língua, temos de admitir que a “tradicional”
questão das dicotomias: teoria/prática; original/tradução
e científico/técnico, citando apenas três delas, já
não se coloca mais da maneira como tem sido tratada.Derrida (1996a)
comenta sobre o double bind: Por definição um double bind
não se assume, só podemos sofrê-lo na paixão:
por outro lado, um double bind não se analisa integralmente. [...]
Mas se um double bind não se assume, há várias maneiras
de suportá-lo (p.51-2). Assim, a partir da dimensão desconstrutivista,
podemos afirmar que não é mais possível distinguir
a tradução técnica da literária, como também
a teoria da prática na formação do tradutor. O que
está em jogo, neste caso, é a língua e a relação
do tradutor com as línguas envolvidas na tradução.
Estas distinções são apenas regras de um jogo para
que o tradutor possa ser afetado pelo double bind através das línguas
do texto que traduz e da língua do tradutor. A partir desta postura,
em Ottoni (1997), afirmo:Estar neste “meio”, neste “duplo”
papel em que se encontra o tradutor [...], é um acontecimento decorrente
não só porque há diferença lingüística
entre as línguas, como também porque há diferença
de sistema de língua inscrita numa só língua [cf.
Derrida, 1982, p. 134]. Este “meio” é o lugar do indivíduo,
do sujeito que não se separa do seu objeto (a língua), das
suas diferenças e nem das suas impurezas. O sujeito, ao traduzir,
está “entre” a diferença de dois sistemas lingüísticos
e no “meio” das “várias línguas”
que compõem as línguas envolvidas na tradução.
(p.23-4).Essas “impurezas” são vistas para Rónai
e Maillot como “enfermidade da linguagem” e, para Derrida,
essas “impurezas” são constitutivas da linguagem, são
elas que possibilitam a tradução e devem ser assumidas e
suportadas. Não há sentido único e estável,
só assim há línguas. São essas “impurezas”
que o tradutor, ao traduzir, inevitavelmente, produz. A distinção
– literário e técnico – deve ser considerada,
mas o envolvimento com a língua do texto a ser traduzido e a do
tradutor - o estar “entre” e no “meio” da língua
materna e da estrangeira – é o que deve ser considerado prioritário
na formação do tradutor. Na dimensão desconstrutivista,
a participação do tradutor na produção de
significados e o fato de que tanto a traduzibilidade quanto a intraduzibilidade
de um texto nunca podem ser totais, revela que através do double
bind a tradução de um texto enquanto acontecimento está
sempre entre o traduzível e o intraduzível. Desse modo,
em Ottoni (1998, a sair), afirmo que:As fronteiras imaginárias
entre as línguas são apenas regras de um jogo, para que
se possa refletir sobre tradução, e para que o tradutor
possa encenar o paradoxo double bind, a existência de várias
línguas nas línguas envolvidas na tradução.
(p. a sair)Ao comentar a questão da tradução do idioma
e de uma razão universal, Derrida (1995) faz a seguinte questão:Como
então reconciliar o valor de um idioma que é às vezes
intraduzível - às vezes e até um certo ponto somente:
não há nada de absolutamente intraduzível, nem de
absolutamente traduzível -, como reconciliar o intraduzível
e a tradução? (p.117)A hipótese, que procuro sustentar,
é a de que a distinção entre a tradução
científica e literária é regra de um jogo para mostrar
o tipo de envolvimento que o tradutor tem com a língua através
do double bind. Assim, é possível encarar a formação
do tradutor – científico e literário – como
necessária e impossível. Concluindo, diria que a distinção
entre a formação do tradutor científico e técnico
e a do literário e filosófico se, por um lado, pode facilitar
a discussão no âmbito da formação institucional
e da profissionalização do tradutor; por outro, dificulta
que o tradutor encare seu envolvimento com as línguas. As diferentes
maneiras de situar o tradutor frente às línguas de diferentes
textos dificulta o envolvimento com o double bind, impedindo que o tradutor
assuma, junto com o autor do texto que traduz, as responsabilidades da
produção e da transformação de significados.
Na dimensão desconstrutivista não importa o tipo de texto
que está em jogo na reconciliação entre o intraduzível
e a tradução. A dicotomia científico/literário
enfraquece o papel da língua, deixando sempre a impressão
de que há dois tipos de língua para dois tipos de texto.
Esta contradição que aparece em Maillot e Rónai,
por um lado, mostra a dificuldade que o tradutor terá ao sofrer
e suportar, inevitavelmente, o double bind; por outro, imaginar que esta
divisão existe fora da língua prejudica a formação
do tradutor que, ao sofrer e suportar esse double bind, não consegue
conviver com o paradoxo de que não há nada de absolutamente
intraduzível, nem de absolutamente traduzível.